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Saturday, February 24, 2007

Homenagem a Alberto Pimenta I


Kasbah, acrílico s/tela,130X89, [1995]

(col. Paula Rovira)









artur hipólito morreu com 62 anos, 20 anos após ter feito 42, mas na altura quem diria?/


heitor fragoso morreu atropelado.foi levado para o hospital, mas esqueceram-se duma parte do corpo no local do acidente./


manuel testa morreu sem se ter conseguido habituar a este modode mal-estar no mundo./


arnaldo rodrigues caiu a um buraco da canalização e nunca mais foi visto./


jeremias cabral pôs termo à existência por motivos desconhecidos./


zeca gomes morreu em defesa da pátria mas a pensar noutra coisa./


antónio de oliveira morreu igual a si mesmo: triste sinal dos tempos!/


bernardo leite pôs-se a pensar na morte e não conseguiu voltar atrás./


ivo gouveia tinha uma agência funerária e escolheu para si um caixão representativo./


guilherme silva fechou-se no sótão, para morrer num lugar elevado./


luís dimas respirava saúde, agora respira um hálito de eternidade./


antónio garcia, o coveiro, teve uma síncope e caiu dentro da cova que estava a abrir./


bento nogueira engasgou-se com um pedaço de carne e desapareceu do nosso convívio./


paiva de jesus enforcou-se./


joão baptista viu o cunhado levantar-se do caixão e teve uma síncope./


lourenço pinheiro estava a ver atrovoada e um relâmpago entrou-lhe por um olho e saiu-lhe pelo outro./


jorge velez de castro finou-se após uma longa vida de sacrifícios, toda dedicada ao bem-comum. e foi assim: depois de ter ingerido o seu sumo de laranja, foi conduzido para a cadeira de repouso pelo enfermeiro de confiança. nela se conservou, de boca entreaberta e olhos fechados, até às onze horas. às onze horas, o enfermeiro de confiança aproximou-se com a intenção de o conduzir ao banho. pondo delicadamente a mão nas costas da cadeira, disse: são horas do banho, senhor director. como este não desse sinal de ter ouvido, o enfermeiro de confiança, com a costumada jovialidade, debruçou-se e repetiu: são horas do banho, senhor director. posto isto, empurrou a cadeira até ao balneário, passou um braço pelos rins outro por baixo dos joelhos do director, e assim o levou para a água, só então se dando conta de que ele já não vivia./


zé maria, o peidolas, foi expulso da vida pela autoridade competente./


joão gaspar foi um nobre e valoroso homem que morreu heroicamente no campo da honra. paz à sua alma./


raul santos deitou-se um dia e por mais que o sacudissem nunca mais se levantou./


alfredo penha caiu tão desastradamente da cama que nem é possível dar pormenores da sua morte./


joaquim perestrelo morreu no meio da missa, qual quê! ainda a missa não ia a metade!/


sousa dias morreu de pé, mas enterraram-no deitado, como toda agente.



Alberto Pimenta, Fastos III

1 comment:

Anonymous said...

Fiquei fascinado com o "Kasbah", não aquele que cheira a bedum e onde os árabes suados se (nos) atropelam. Foi da sua pintura mesmo, metálica, com alguns requebros de lascívia mas incomparavelmente afirmativa. Senti-me seduzido, de uma atracção sem retorno.
Fernando