Thursday, May 31, 2007

O Pior analfabeto é o analfabeto político...



The Politician, acrílico s/tela, 100X81 cm, 2005

(col. José Luís Ribeiro)
















O Vosso tanque General, é um carro forte

Derruba uma floresta esmaga cem

Homens,

Mas tem um defeito

- Precisa de um motorista

O vosso bombardeiro, general

É poderoso:

Voa mais depressa que a tempestade

E transporta mais carga que um elefante

Mas tem um defeito

- Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil:

Sabe voar, e sabe matar

Mas tem um defeito

- Sabe pensar

Bertold Brecht

Wednesday, May 30, 2007

CAE II - Pai, afasta de mim esse cálice

A Última Ceia, acrílico s/tela, 2,50X100cm, 2006

(Exposição no CAE)









Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa
De muita gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade
Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça
Cálice
Gilberto Gil/Chico Buarque - 1973

CAE I














Exposição individual no C.A.E. (Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz)
Dezembro, 2006
Como sempre, os bons apareceram, ou seja, os meus amigos.

Tuesday, May 29, 2007

Floresta de desenganos



Amazónia, acrílico s/tela, 100x60 cm, 1998

(col. Miguel Moreira)


"A realidade é chata, mas ainda é o único lugar onde se pode comer um bom steak".


"A vocação de um político de carreira é fazer de cada solução um problema".


"Às vezes perguntam-me por que trabalho tanto. É porque, quando ficar velho, quero pôr meus pais num asilo".


"Certa vez tomei a atitude política mais firme da minha vida: passei 24 horas sem comer uvas".


"Certo dia, atrasei-me ao voltar da escola e meus pais pensaram que eu havia sido sequestrado. E aí entraram imediatamente em acção: alugaram meu quarto".


"Como posso acreditar em Deus se, na semana passada, prendi a língua no rolo de minha máquina de escrever?"


"Discordo de Freud. Não acho que a inveja do pénis seja exclusiva das mulheres".


"Deus não existe e, se existe, não é muito confiável".


"É agradável, de tempos em tempos, tentar imaginar o que teria sido a existência se Deus tivesse conseguido um orçamento e roteirista melhores".


"E se tudo for uma ilusão e nada existir? Nesse caso, não há dúvida de que paguei demais por aquele carpete novo".


"Em Viena, em 1906, por cinco dólares você podia ser analisado pelo próprio Freud. Por dez dólares, Freud deixaria que você o analisasse. E, por quinze dólares, ele não apenas não o analisaria como passaria suas calças a ferro".


"Eu detestaria concluir que, sem Deus, a vida não teria sentido e, depois de dar um tiro nos miolos, ler no jornal no dia seguinte que Ele foi encontrado".


"Eu e minha mulher ficamos na dúvida entre tirar férias ou nos divociarmos. Optamos pela segunda hipótese. Duas semanas no Caribe podem ser divertidas, mas um divórcio dura para sempre".


"Eu era muito jovem para ter um carro. Então transava com as moças no banco de trás de minha bicicleta".


"Faço análise há trinta anos e a única frase inteligente que já ouvi do meu analista é a de que preciso de tratamento".


"Finalmente tive um orgasmo. Mas o médico me disse que era do tipo errado".


"Fiz um curso de leitura dinâmica e li Guerra e Paz em vinte minutos. Tem a ver com a Rússia".


"Fui criado na velha tradição judaica: nunca me casar com uma mulher gentia, nunca me barbear aos sábados e, principalmente, nunca barbear uma mulher gentia aos sábados".


"Há uma lei em Nova Iorque segundo a qual só se concede um divórcio no caso de adultério de um dos cônjuges. Bem, eu me ofereci para a tarefa".


"Juro que não sabia que Hitler era nazista. Durante muito tempo pensei que ele trabalhasse para a companhia telefónica".


"Mais do que em qualquer outra época, estamos numa encruzilhada. Um dos caminhos leva à catástrofe e ao mais terrível desespero. O outro leva à extinção total. Vamos rezar para que façamos a escolha certa".


"Meu pai trabalhou na mesma empresa durante doze anos. Eles demitiram-no e substituíram-no por uma maquininha deste tamanho, que faz tudo o que o meu pai fazia, só que muito melhor .O deprimente é que minha mãe também comprou uma igual".


"Meus pais não tinham dinheiro para me comprar um cachorro. Então levaram-me a uma loja de animais e compraram-me uma pulga. Eu chamava-a Manchinha".


"Meus reflexos não são muito bons. Certa vez fui atropelado por um carro que estava sendo empurrado por dois sujeitos".


"Minha primeira mulher era muito infantil quando nos casámos. Um dia, eu estava tomando banho na banheira e ela afundou todos os meus barquinhos sem o menor motivo".


"Minhas notas na escola variaram de abaixo da média a abaixo de zero. Fui reprovado no exame de Metafísica. O professor acusou-me de estar olhando para a alma do rapaz sentado ao meu lado".


"Na Califórnia não se joga o lixo fora. Eles reciclam-no na forma de programas de TV".


"Não apenas Deus não existe, como tente encontrar um canalizador num fim de semana".


"Não despreze a masturbação - é fazer sexo com a pessoa que você mais ama".


"Não que eu esteja com medo de morrer. Eu só não queria estar lá quando isso acontecesse".


"O crime organizado na América rende 40 bilhões de dólares. É muito dinheiro, principalmente quando se considera que a Máfia quase não tem despesas de escritório".


"O mundo divide-se em pessoas boas e pessoas más. As pessoas boas têm um sono tranquilo. As pessoas más se divertem muito mais".


"Por que Deus não fala comigo? Se Ele pelo menos tossisse!"


"Por que escovar os dentes quatro vezes ao dia e fazer sexo duas vezes por semana? Por que não o contrário?"


"Quando comecei a escrever, tentei vender a história de minha vida sexual para uma editora. Eles a compraram e a transformaram num joguinho de armar para crianças".


"Quando eu era pequeno, meus pais descobriram que eu tinha tendências masoquistas. Aí passaram bater-me todo dia, para ver se eu parava com aquilo".


"Se Deus existe, por que Ele não me dá um sinal de Sua existência? Como, por exemplo, abrir uma bela conta em meu nome num banco suíço".


"Se eu acho que sexo é sacanagem? Só quando é bem feito".


"Sempre achei que iria levar anos para fracassar da noite para o dia".


"Todas as minhas tentativas de suicídio foram um fiasco. Eu vivia abrindo as janelas e fechando o gás".


"Para você eu sou um ateu; para Deus, sou a Oposição Leal".


"Você pode viver até os cem anos se abandonar todas as coisas que fazem com que você queira viver até os cem anos."


"A única coisa que lamento na vida é que não sou outra pessoa qualquer".


"Não posso escutar muito Wagner. Fico com vontade de invadir a Polónia".

Woody Allen

Thursday, March 29, 2007

Com a Cabeça entre as Orelhas


Auto-retrato Azul, acrílico s/tela, 81X100cm, 1998

(vendido na Casa do Canto, Ancas, Anadia)















Hoje de manhã saí muito cedo
Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.
Alberto Caeiro

Tuesday, March 13, 2007

Igreja de Vouzela



Igreja de Vouzela, acrílico e óleo s/tela, 60X50cm, 2000

(col. Câmara Municipal de Vouzela,

1º Prémio Concurso de Pintura

ao Ar Livre, C.M.V., 2000)

Seus Olhos

Seus olhos... se eu sei pintar

O que os meus olhos cegou...

Não tinham luz de brilhar.

Era chama de queimar;

E o fogo que a ateou

Vivaz, eterno, divino,

Como facho do Destino.

Divino, eterno!...e suave

Ao mesmo tempo: mas grave

E de tão fatal poder,

Que, num só momento que a vi,

Queimar toda alma senti...

Nem ficou mais de meu ser,

Senão a cinza em que ardi.

Almeida Garrett

Tuesday, March 6, 2007

A Carta










Cocuana, acrílico s/tela, 80X70cm, 2004



(col. Mário Costa)


















A velha dobrou as pernas como se dobrasse os séculos. Ela sofria doença do chão, mais e de mais se deixando nos caídos. Amparava-se em poeiras, seria para se acostumar à cova, na subfície do mundo?- Me leia a carta. Me entregava o papel marrotado, dobrado em mil sujidades. Era a Carta de seu filho, Ezequiel. Ele se longeara, de farda, cabelo no zero. A carta, ele a enviara fazia anos muito coçados. Sempre era a mesma, já eu lhe conhecia de memória, vírgula a vírgula.- Outra vez, mamã Cacilda?- Sim, maistravez.Sentei o papel sob os olhos, fingi acarinhar o desenho das letras. Quase nem se viam, suadas que estavam. Dormiam sob o lenço de Cacilda, desde que chegara a guerra. Essas letras cheiram a pólvora, me rodilham o coração. Era o dito da velha. Agora, passados os tempos, aquele papel era a única prova do seu Ezequiel. Parecia que só pelo escrito, sempre mais desbotado, seu filho acedia à existencia. Nas primeiras vezes eu até me procedia à leitura, traduzindo a autêntica versão do pequeno soldado. Eram letras incertinhas, pareciam crianças saindo da formatura. Juntavam-se ali mais erros que palavras. O recheio nem era maior que o formato. Porque naquela escrita não havia nem linha de ternura. O soldado aprendera a guerra desaprendendo o amor? Em Ezequiel, morrera o filho para nascer o tropeiro? Nas primeiras leituras, meu coração muito se apertava em inventadas dedicatórias aquela mãe. Enquanto lia, eu espreitava o rosto da idosa senhora, tentando escutar uma ruga de tristeza. Nada. A velha se imovia, como se tivesse saudade da morte. Seus olhos não mencionavam nenhuma dor. Eu tentava um alivio, desculpar o menino que não sobrevivera à farda. Nem se entristenha, mamã Cacilda. Também, maneira como carregaram esse menino para a tropa! Sem camisa, sem mala, sem notícia. Atirado para os fundos do camião como se faz às encomendas sem endereço.- Entenda, mamã Cacilda.Mas ela já dormia, deitada em antiquíssima sombra. Ou mentia que Dormia, debruçada na varanda da alma? Fingia, a velha. Como o rio, num açude, se disfarça de lagoa. Depois, ela regressava às pálpebras, me apressava.- Continua. Por que paraste?Já não restava nada que ler. Era só o gorduroso gatafunho, despedida Sem nenhum beijo. Pode a carta de um saudoso filho terminar assim «unidade, trabalho, vigilância»? Mas a velha insistia, cismalhava. Eu que lesse, toda a gente sabe, as letras igualam as estrelas mesmo poucas são infinitas. Eu lhe fosse paciente, pobre mãe, sem nenhuma escola. Foi então que passei a alongar aquela tinta, amolecendo as reais palavras. Inventava. Em cada leitura, uma nova carta surgia da velha missiva. E o Ezequiel, em minha imagináutica, ganhava os infindos modos de ser filho, homem com méritos para permanecer menino. Cacilda escutava num embalo, houvessem em minha voz ondas de um sepultado mar. Ela embarcava de visita a seu filho, tudo se passando na bondade de uma mentira. Diz-se na própria doideira dos vamos loucurando. Até, um dia, me trouxeram notícia. Ezequiel perdera, para sempre, a existencia. Ele se desfechara em incógnitos matos, vitima dos bandos. A mãe nem suspeitava. Perguntei desconhecia-se o paradeiro dela. Ficasse eu atribuido de lhe entregar o escuro anúncio. Esperei. Nesse fim de tardinha, porém, mamã Cacilda não compareceu em minha casa. Assustei adivinhara ela o destino do Ezequiel? Quem conhece os poderes de uma mãe em exercicio de saudade? Decidi ir ao seu lugar. Parti ainda restavam manchas do poente. Cacilda cozinhava uns míseros grãos, ementa de passarinho.- Senta, meu filho, fica servido, não custa dividir pobrezas.Fui ficando, me compondo de coragem. Como podia eu deflagrar aquele luto? Comemos. Melhor fingimos comer. Faz conta é uma refeição, meu filho. Faz conta. Modo que eu vivo, fazendo de conta.- E agora, diz porque vieste nesta minha casa?Olhei o chão, o mundo escapava pelo fundo. Ela venceu o silêncio.- Me vens ler o meu filho?Acenei que sim. Aceitei o velho papel mas demorei a começar. Eu queria acertar os meus tons, evitando o emergir de alguma tremura. Finalmente, atravessei a escrita, ao avesso da verdade. Trouxe as novas do filho, seus consecutivos heroísmos. Ele, o mais bravo, mais bondoso, mais único. Como sempre, a mãe escutou em qualificado silêncio. Às vezes, no colorir de um parágrafo, ela sorria sempre igual, esse meu filho. Eu me parabendizia, cumprida a missão do fingimento. Me despedi, quase em alívio. Foi então, em derradeiro relance, que eu vi a velha mãe lançava a carta sobre a fogueira. Ao meu virar, ela emendou o gesto. O papel demorou um instante a ser mastigado pelo fogo. Nesse brevíssimo segundo, eu anotei a lágrima pingando sobre a esteira. Ela fingiu tirar um fumo do rosto, fez conta que metia a carta sob o lenço. Me voltei a despedir, fazendo de conta que aquele adeus era igual aos todos que já lhe concedera.


Mia Couto